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Liberte-se do Modo Automático da sua Câmera

COMO A COMPREENSÃO DOS MODOS MANUAIS DA CÂMERA DIGITAL PODE TRANSFORMAR SUA FOTOGRAFIA



A inspiração para este artigo surgiu após eu perceber que há certa tendência nas pessoas em realizar upgrades das suas câmeras digitais com intuito de melhorar a qualidade de suas fotos. E o raciocínio não está errado, mas para a intenção surtir efeito, é essencial que o dono do equipamento também acompanhe este upgrade, caso contrário, poderá terminar com uma câmera profissional cheia de “funções” e “regulagens”, das quais tomará pouco ou nenhum conhecimento, ficando limitado à zona de conforto do modo automático. Esta seria uma situação comparável à de um aprendiz de autoescola ao volante de um Porsche, analogia que utilizei no texto em que falei sobre cameras digitais e seus donos. Acontece que muita gente parte do princípio que um equipamento mais parrudo invariavelmente será capaz de produzir fotos melhores do que as de uma máquina mais magrinha. Isso até pode ser verdadeiro nos casos em que a magrinha em questão seja uma câmera excessivamente barata e de baixa qualidade, caso contrário, conforme já comentei no texto como tirar boas fotos sem curso de fotografia, suas fotos dependem muito mais das condições do ambiente e do seu talento como fotógrafo do que da câmera que você estiver usando. E quando falo em talento, não me refiro apenas à aptidão artística, mas também ao conhecimento necessário para operar corretamente aqueles controles manuais de uma câmera mais avançada, operações estas que muita gente imagina ser um bicho de sete cabeças. O fato é que, com um mínimo de conhecimento teórico sobre o assunto, qualquer feliz proprietário de uma DSLR ou qualquer outra câmera digital mais incrementada, se torna capaz de adentrar no “nebuloso”, mas fabuloso mundo dos controles manuais da fotografia. Se você é uma dessas pessoas que gostaria de tirar as melhores fotos possíveis, mas que nunca teve coragem de se aventurar fora daquele irresistível ícone verde do seletor da sua câmera, esse texto foi feito para você. Leia e saiba o que está perdendo.


Vamos falar sobre Controle de Exposição


Não tem jeito, se você quiser dar o primeiro passo para compreensão de como aquela foto fantástica de cair o queixo foi feita, a primeira coisa é entender como funciona o controle de exposição de luz na fotografia. Vamos lá, existe uma forma bem prática lidarmos com isso: imagine a fotografia como o quadro de um pintor famoso. Para realizar a pintura, grosseiramente falando, o artista deposita tinta sobre uma tela até que uma imagem seja formada sobre ela. Na fotografia tradicional, com máquinas analógicas, podemos usar esse mesmo raciocínio: a tela passa a ser um filme fotográfico sensível à luz, no qual a imagem é “pintada” não com tinta, mas com a luz refletida pelos objetos da cena retratada. No entanto, não é qualquer luz, mas a quantidade certa em função das condições do ambiente no momento da foto: luz demais “queima o filme” enquanto luz de menos torna-se insuficiente para revelar adequadamente a imagem. Para dosar corretamente essa luz, a câmera abre e fecha uma pequena janela durante uma fração de segundo, permitindo assim passagem da quantidade adequada que entrará em contato com o filme fotográfico.

Seletores das câmeras Nikon Canon: em vermelho estão as chave para a liberdade.
Para conseguir realizar esse dimensionamento de forma precisa, a câmera conta com dois recursos: ela regula a abertura da janela e também o tempo que ela permanece aberta (destapada). No caso, o que tapa ou destapa a janela é um mecanismo conhecido como “obturador” que pode ser comparado a uma cortina que descobre a janela apenas quando clicamos a foto. Com estes dois parâmetros trabalhando em conjunto, a câmera consegue então dimensionar a quantidade de luz que vai atingir o filme. Mas os filmes, por sua vez, não são todos iguais. Se um deles tiver maior sensibilidade que outro, significa que menos luz vai ser requerida para gravar uma determinada cena. Por outro lado, o registro da mesma cena por uma câmera com filme menos sensível vai requerer um ajuste que permita a passagem de uma maior quantidade de luz. Em outras palavras, quanto mais sensível o filme, menos quantidade de luz será requerida para a formação da mesma imagem.

Vamos agora detalhar melhor a questão da abertura dessa tal “janela”, que fica na lente da câmera fotográfica e cujo sistema de regulagem se assemelha muito com o do olho humano. Nesse sentido, você sabe muito bem que quando ficamos muito tempo no escuro, nossas pupilas se dilatam para captar a maior quantidade possível da pouca luz disponível. Da mesma forma, a lente fotográfica pode ser regulada para uma grande abertura quando fotografamos em ambiente de pouca luz. Se subitamente saímos do escuro e entramos em um local muito iluminado, ficamos ofuscados durante o tempo em que nossa pupila dilatada leva para reduzir sua abertura. Se convertêssemos essa sensação de incômodo em uma fotografia, a mesma sairia excessivamente clara, praticamente toda branca.

Nossos olhos e as lentes fotográficas: controles de luminosidade criados pela natureza e pela ciência

Vimos então que existem três fatores envolvidos no controle de exposição de uma fotografia, fazendo com que ela fique mais escura ou mais clara: o tamanho da janela (abertura da lente), o tempo que a janela fica descoberta (velocidade do obturador) e a sensibilidade (ISO) do filme que está sendo atingido pela luz captada pela câmera. Esses três fatores juntos são conhecidos como “o triângulo da exposição”. Se trouxermos as coisas para a realidade atual da fotografia digital, a única coisa que efetivamente muda nessa história toda é que no lugar do filme, temos agora um sensor eletrônico. E se antes permanecíamos presos o valor de ISO do filme que estivesse montado na máquina, agora com o sensor digital temos a possibilidade de variar essa sensibilidade a qualquer momento, de acordo com as necessidades para cada foto, uma baita mão na roda por sinal.

O triângulo da Exposição

E o que você ganha com tudo isso?


Pois bem, o domínio dos três pilares da exposição é o primeiro passo para que você possa assumir o controle da sua fotografia e começar a dar asas à sua criatividade. Apenas para dar uma ideia das novas possibilidades que surgem à sua frente, vamos demonstrar exemplos das situações mais clássicas de customização de parâmetros manuais, onde o fotógrafo assume o controle da velocidade do obturador para criar efeitos inalcançáveis quando restrito ao modo automático da câmera. Na primeira situação, vamos analisar uma foto tirada à noite de dentro de um cômodo. O objetivo desta fotografia era retratar a bela vista noturna a partir da janela desse cômodo, mas a foto foi feita como a câmera em modo automático e, como podem perceber, o fotógrafo deve ter ficado bastante decepcionado com o resultado:

Onde foi parar aquela linda vista da janela?

Mas o que pode ter saído errado? Como havia pouca luz disponível na sala, a câmera achou por bem disparar o flash e aplicar uma elevada velocidade de obturador, coisa de 0,016 segundos (1/60s). Desse jeito, como podem perceber, apenas aquilo que estava perto o suficiente para ser iluminado pelo flash foi registrado na foto. O resto, incluindo a vista da janela, simplesmente desapareceu para sempre, envolto nas trevas...

Já para a foto seguinte, o fotógrafo tendo se dado conta que é mais inteligente do que sua câmera feita de um punhado de plástico e circuitos eletrônicos, resolveu assumir o comando da situação e passou o seletor para o modo manual, tirando o flash e diminuindo a velocidade do obturador, que agora ao invés de uma fração de segundo, ficou aberto uns bons 10 segundos. Esse tempo foi longo o suficiente para permitir que o sensor da câmera captasse uma boa quantidade da tênue luz noturna. Como resultado, toda a vista da janela foi revelada e não apenas aquilo que o flash teria capacidade de iluminar.

Agora sim, a foto retrata a cena tal qual me lembro dela!
Contudo, há um ponto importante a saber: neste tipo de foto torna-se obrigatório apoiar a câmera em alguma superfície firme, ou de preferência usar um tripé. Caso contrário, como em qualquer foto de longa exposição, o menor tremor das suas mãos – por mais firmes que sejam, compromete totalmente sua nitidez e a imagem invariavelmente sai toda borrada.

Para nosso segundo exemplo, utilizei fotos tiradas durante uma corrida da Fórmula Truck que fui assistir em um dia de sol escaldante, condição na qual a câmera normalmente seleciona uma velocidade de obturador bem alta. Desta maneira, conforme constatamos nesta primeira imagem, a câmera selecionou automaticamente uma velocidade de 0,002 segundos (1/500s).

Uma alta velocidade do obturador “congela” o movimento do caminhão, dando a impressão de que ele está estacionado.
Não há nada de errado com essa foto, ficou até bem bonita, mas pensando bem, não conseguimos transmitir nenhuma ideia de movimento: apesar do caminhão estar rasgando a reta a uns 150 km/h, dá até a impressão de que está parado. Para mudar isso, precisei mais uma vez acessar o modo manual e diminuir a velocidade de obturador para 0,06 segundos (1/15s), que já foi suficiente para criar o efeito de movimento do qual estávamos sentindo falta.

Velocidades mais baixas de obturador registram o movimento do caminhão rasgando a reta.

Como você deve ter percebido, tudo depende do motivo que estou fotografando e qual “mensagem” eu pretendo transmitir na minha fotografia. E é justamente aí que começa a entrar em cena o olhar e o cérebro do fotógrafo.
  
Mas e se eu ficar mexendo na velocidade do obturador, isso não vai alterar minha exposição? Um obturador aberto durante um tempo excessivo não fará com que entre luz demais e estrague a foto? Sim, isso certamente aconteceria se a velocidade do obturador fosse a única variável envolvida. Mas como comentamos nos parágrafos anteriores, temos além desta, mais duas variáveis no controle de exposição da fotografia. Então, sempre que eu aumentar o tempo do obturador e quiser manter constante a quantidade de luz no sensor da câmera (mesma exposição), basta então que eu diminua de forma proporcional o tamanho da abertura da lente. Outra possibilidade, que pode ser usada isoladamente ou em conjunto com a regulagem de abertura é a redução da sensibilidade do sensor (diminuir o valor de ISO), de modo que o sensor consiga dar conta do “excesso” de luz pelo fato do obturador ter ficado mais tempo aberto.

Conclusão


Uma boa compreensão dos parâmetros envolvidos no controle de exposição é sem sombra de dúvidas a parte mais importante de qualquer curso de fotografia e, portanto, é a primeira coisa que você deve aprender se desejar elevar o nível das suas fotos. Explorando corretamente os controles manuais da sua câmera, você não apenas será capaz de melhorar a qualidade dos seus registros, como também vai adquirir um maior grau de liberdade no processo, algo comparável à liberdade de um artista ao pintar um quadro. A partir desse ponto, sua imaginação passa a ser o limite e a fotografia começa a se tornar uma atividade extremamente interessante, bastando agora treinar para saber o que fazer com essa liberdade. Afinal de contas, no que diz respeito à produção de fotografias campeãs, dominar a técnica ainda é a parte mais fácil. Isso porque os maiores fotógrafos do mundo se diferenciam dos demais não apenas (e não tanto) pela bagagem técnica que possuem, mas principalmente por saberem como ninguém usufruir da liberdade que seu equipamento lhes oferece, tornando-os mestres na arte de criar imagens que valem mais que mil palavras. 

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Sobre o Autor:
Robson Dombrosky , engenheiro, motociclista e aventureiro. Um viajante deveras curioso, que sempre percorre seus destinos munido de um bloco de notas e de uma bela câmera fotográfica.

11 comentários :

  1. Muito bacana o texto. Sou uma "amadora profissional", e tenho buscado fazer fotos melhores, para arquivo pessoal mesmo, e vejo que é muito difícil captar boas fotos em ambientes mais escuros. Tenho apanhado bastante para meu "bebê" (uma nikon d40). Mas, sou apaixonada por fotografia e agora me divirto muito aprendendo na marra!

    Suas dicas são muito úteis! Vou colocar em prática e melhorar a qualidade das minhas fotos!

    Obrigada!

    Abraços
    Julise

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    1. Legal Julise! A D40 é uma ótima câmera para aprendizado, você certamente está bem servida nesse quesito. Para fotos em ambientes escuros, sempre que o motivo for estático, vale a pena colocar a câmera num tripé e selecionar um valor de ISO baixo, o que deixa as fotos mais bonitas. No mais, boas fotos e boa diversão pra você!

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  2. Sensacional esse post!
    Comecei a me interessar mais entusiasmadente por fotografia há muito pouco tempo e esse post aumentou ainda mais meu interesse. Claro, direto e muito bem escrito. Minha vontade é sair correndo pra colocar em prática o que acabei de aprender aqui imediatamente.
    Parabéns! E, se possível, escreva mais sobre o assunto!

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    1. Legal Pedro, é isso mesmo, mãos à obra, pois com bastante treino nossas fotos vão ficando cada vez melhores! Muito obrigado pelos comentários, vou ver se escrevo mais sobre esse assunto sim. Abraço e boas fotos!

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  3. Ótimo post Dombrosky, ano passado comprei uma Nikon P510, sabia que apesar de ser considerada uma máquina de conforto, havia muitas possibilidades devido ao modo manual. Já estava desanimando, pois as fotos tiradas no modo automático nada se diferenciava das que eu tirava com a Sony Cyber Shot (mirar e atirar), mas depois de ler o texto me inspirei a pesquisar sobre o assunto, encontrei cursos rápidos na internet, apostilas em PDF, etc., me mostrou um mundo de possibilidades, que hoje faz valer a pena o dinheiro investido numa máquina melhor.

    Muito obrigado.

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    1. Que legal Bruno. Seu caminho na fotografia se parece com o meu. Também comecei com uma point and shoot, mas ao começas a ler materiais na net sobre teoria de fotografia, logo me dei conta que precisaria trocar de câmera - foi quando comprei outra máquina compacta, mas que já possuía os modos manuais.

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  4. Rob, excelente, claro e objetivo, abs NIlson

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    1. Obrigado Nilson, a ideia era essa mesma, tentar ser o mais objetivo possível.

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  5. Robson, parabéns, você tem o dom de produzir um texto claro e sucinto, sem perda de conteúdo. Apreciaria muito ler mais textos seus sobre a técnica da fotografia.
    Obrigado

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    1. Alexandre, muito obrigado por este seu comentário, bastante motivador. Está nos meus planos escrever mais sobre o assunto, apenas não sei dizer quando. Vc pode inscrever seu email para ser avisado sobre novas postagens. Abraço!

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  6. Gostei muito! bem útil. Parabéns.

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