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Praga, Berlim e Amsterdã

Este material foi produzido em 2002. Naquela época eu tinha 22 anos e usava uma câmera (de filme) de quinta categoria. Daí o estilo diferente de escrita e as fotos limitadas. 

LESTE EUROPEU: DESCOBRINDO UMA OUTRA EUROPA - PARTE FINAL

Esta é a continuação da parte 6 - Polônia: Cracóvia, Varsóvia e Campo de Auschwitz

No dia mais longo em termos de quilometragem rodada, viajamos de Varsóvia na Polônia até Praga, capital da República Tcheca. Para compensar a longa jornada que estava por vir, fomos presenteados com uma curta noite de sono, tendo que acordar às 4 da madrugada para levantar acampamento. Como sempre, socamos todas as mochilas no bagageiro do ônibus e partimos. Durante esse dia, foram usados os mais diversos recursos para passar o tempo dentro do ônibus: ler, ouvir música, assistir a filmes, jogar baralho, tentar dormir e às vezes nenhuma das alternativas anteriores. O principal era levantar e dar uma volta pelo corredor de vez em quando, para não ficar com a bunda quadrada. Antes de chegar ao destino ainda tivemos mais um daqueles agradáveis pit-stops de fronteira, onde o ar condicionado do ônibus geralmente se recusa a funcionar.


A famosa ponte de Praga, República  Tcheca
 O longo dia de viagem seria recompensado com duas noites de estadia em Praga, uma beleza de lugar. A cidade estava bem agitada, turistas, eventos culturais e mercados por toda parte. Tudo isso acabou lembrando um pouco Istambul e naturalmente me motivou a passar o dia inteiro explorando cada canto da cidade. O centro histórico de Praga tem um certo ar gótico e foi justamente de onde veio a inspiração para a criação de Gothan City, no filme do Batman. É também mais uma das cidades onde se pode visitar áreas antes habitadas exclusivamente por judeus, com sinagogas e um surpreendente cemitério. Com relação aos mercados e lojas, o lugar pode ser considerado um verdadeiro paraíso, especialmente para quem curte lojas cheias de bonequinhos, caixinhas, cristaizinhos, rendinhas e afins. Quem consegue sair de dentro das lojas, pode passar horas assistindo artistas de rua, cartunistas e pintores em ação, ou talvez descansar à sombra no parque à beira do grande rio que atravessa a cidade. Tudo isso junto faz de Praga um lugar bem agradável que te encoraja a andar até gastar a sola do tênis.

Dia seguinte atravessamos a fronteira da República Tcheca com a Alemanha, retornando à comunidade européia. Junto com os países do leste ficavam para trás as penosas fronteiras e as constantes visitas a casas de câmbio para trocar dinheiro. A partir desse ponto apenas mais duas cidades ainda estavam no roteiro: Berlim e Amsterdã.

Depois de ter assistido a tantos documentários na TV, falando sobre Hitler e sua patota, Berlim passou a ser uma das cidades que eu mais gostaria de visitar. Berlim foi o centro de inúmeros acontecimentos históricos durante o último século, boa parte deles giraram em torno do muro de Berlim, construído em 1961 para separar a Alemanha Ocidental da Oriental. Com o fim da Segunda Guerra, a Alemanha, que tinha sido derrotada pelos aliados, sofreu divisões em seu território, tendo o lado Oriental caído nas garras da União Soviética e conseqüentemente do comunismo.

Trecho preservado do muro de Berlim
 Com a companhia de um guia local, caminhamos pelas partes da cidade onde ficava o QG de Hitler e um de seus abrigos subterrâneos, hoje um playground. Ali perto ficava o Checkpoint Charlie e seu excelente museu. Checkpoint Charlie era um dos pontos por onde se tinha acesso de um lado ao outro do muro de Berlim. Em sua época de operação, era controlado pelos russos num lado e pelos americanos no outro. No museu bem ao lado, são retratadas as inúmeras tentativas de fuga para o lado ocidental, que ocorreram durante os anos de existência do muro. O desejo de escapar da parte oriental era tão intenso que muitos tentavam, mesmo sabendo do grande risco envolvido. Alguns foram até capazes de construir elaboradas engenhocas para possibilitar a fuga, como pequenos aeroplanos, ou até mesmo um balão, que voou com duas famílias por cima do muro no final dos anos 70. O tão famoso muro de Berlim ainda está lá, pelo menos alguns metros que sobraram dos originais 150 km ainda estão de pé. Mesmo após a queda do muro e a reunificação da Alemanha em 1990, alguns trechos foram poupados e ficaram como um marco histórico na cidade. E pelos lugares onde antes passava o muro, agora existe apenas uma faixa no chão, que corre a cidade toda, marcando o local da antiga divisão entre as duas Alemanhas.

Boa parte do dia seguinte foi destinado à viagem de Berlim até Amsterdã. Foi até estranho atravessar a fronteira da Alemanha com a Holanda, porque ao contrário do martírio nas fronteiras do leste, dessa vez o ônibus nem precisou parar para checagem de passaportes; ou melhor, eu nem vi onde um país terminava e o outro começava. Antes de Amsterdã, o ônibus parou numa mini fábrica de queijos, daquelas “pra turista ver”. Lá também era demonstrada a fabricação daqueles tamancos de madeira, bem populares na Holanda. Depois das demonstrações na fábrica de queijo nos ofereceram umas amostras do material para degustação, só que com a fome que eu estava, acabei filando umas lascas de queijo além do previsto. Acontece que com tantos tipos de queijo diferente, tive que prová-los várias vezes pra poder perceber as diferenças entre cada um.  Não é assim que o negócio funciona?

Amsterdã é um espetáculo à parte e foi mais uma das cidades que eu já havia visitado em outra ocasião. Na primeira vez, entretanto, por causa dos horários dos ônibus, eu havia passado apenas umas poucas horas na cidade e a única coisa que tinha ficado conhecendo foi a estação rodoviária. Dessa vez tivemos tempo de sobra para explorar cada beco. E foram exatamente os becos e os guetos que me trouxeram recordações da primeira visita. A primeira impressão, a marca que rapidamente associei ao centro da cidade, foi aquela maresia de maconha, fazendo jus à tradição de que em Amsterdã quase tudo é permitido. A cidade é repleta de “coffee shops”, que é onde o bagulho é vendido, seja em forma de erva para ser fumada, ou como ingrediente em diversos tipos de comida. Quem quiser ficar doidão pode experimentar um biscoito, um bolo de chocolate ou até mesmo um milk shake regado à maconha.  É claro que existe o outro lado, acho que ninguém visita Amsterdã só por causa desse jeito extravagante de ser. Lá é também o lugar onde as bicicletas têm sempre a preferencial, com faixas de trânsito e estacionamentos inteiros especialmente destinados a elas. Mesmo assim foi um tanto engraçado ver um executivo de terno, falando no celular enquanto pedalava sua magrela. Além da bicicleta, um barco também tem bastante utilidade em Amsterdã, já que a cidade é repleta de canais.

Amsterdã, a cidade da bicicleta
 Foi um dia bem proveitoso e à noite, antes de voltarmos ao camping, o grupo inteiro se reuniu, nessa que seria a última noite da viagem. Após a janta, quando estávamos todos caminhando em direção ao nosso ônibus, cometi a façanha de me perder do grupo e tive que me virar para chegar por conta própria ao camping no meio da noite. E já que até agora ainda não tínhamos sido castigados com chuva no lombo em nenhuma das manhãs em que levantávamos acampamento, foi mais do que justo, pelo menos no último dia, ter o gostinho de embolar as barracas todas molhadas de chuva no bagageiro. Eu só não sabia quem seriam os próximos coitados a usar aquilo...

Atravessando o Canal da Mancha da França para a Inglaterra
 Missão cumprida! Após uma rápida viagem da Holanda até Calais na França, atravessamos o canal da mancha e lá estava eu, novamente em solo inglês. Já em Londres, foi bem curioso sentir aquela sensação “estou em casa”, assim tão longe do Brasil. Foram nada menos que 25 dias, rodando por lugares às vezes não tão tradicionais ou conhecidos, mas que fizeram valer cada minuto dispensado nessa viagem. 


FIM.

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Sobre o Autor:
Robson Dombrosky , engenheiro, motociclista e aventureiro. Um viajante deveras curioso, que sempre percorre seus destinos munido de um bloco de notas e de uma bela câmera fotográfica.

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