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Polônia: Cracóvia, Varsóvia e Campo de Auschwitz

Este material foi produzido em 2002. Naquela época eu tinha 22 anos e usava uma câmera (de filme) de quinta categoria. Daí o estilo diferente de escrita e as fotos limitadas. 

LESTE EUROPEU: DESCOBRINDO UMA OUTRA EUROPA - PARTE 6

Esta á a continuação da parte 5 - Budapeste na Hungria e Bratislava na Eslováquia

Por ser um país tão pequeno, a Eslováquia foi visitada na metade de um dia. Saindo de Bratislava rumamos à Polônia. Por incrível que pareça, a fronteira polonesa ainda conseguiu superar todas as outras em matéria de embromação e encheção de saco. Checaram os passaportes, checaram mais uma vez, feito isso revistaram o ônibus, o bagageiro, a bagagem de alguns passageiros e finalmente checaram todos os passaportes novamente. Para compensar a decadência do camping anterior em Bratislava, fomos presenteados com um de primeira linha em Cracóvia. Dessa vez não haveria nenhum show de rock varando a noite no terreno vizinho, os banheiros não estariam a 15 minutos de caminhada das barracas e esses, por sua vez estariam em condições de uso (e eu nem sou tão exigente assim). Terminando de armar as barracas, pegamos um bonde até o centro da cidade.


Cracóvia, poupada nos bombardeios da segunda guerra mundial

Eu já havia estado em Cracóvia ano passado, mas foi bom poder voltar. A cidade é uma das poucas que escaparam intactas aos bombardeios da Segunda Guerra e por isso a parte antiga ainda conserva todas as características originais, como por exemplo a enorme muralha construída ao seu redor como forma de proteção à ataques em tempos medievais. No coração da cidade, a enorme praça, o famoso mercado e os incontáveis bares e restaurantes ao ar livre são motivo suficiente para se passar ali uma tarde inteira. Cracóvia foi também o set de gravação para o filme “A lista de Shindler”, inclusive existe lá uma tour especial passando pelos lugares onde as cenas foram filmadas.

Estava fazendo bastante calor durante todo esse dia e desde manhã cedo já brilhava um sol que eu ainda não tinha visto nos meus dias de Londres. O pessoal no camping também andava animado por causa disso e a maioria tinha ido ao tanque dar cabo da roupa suja. O interessante é que lá pelas 5 da tarde, horário em que todos estavam fora, o tão querido sol que deveria estar secando nossas roupas, resolveu tirar uma folga e em seu lugar desceu o maior temporal. Até que foi bem engraçado presenciar o desespero geral quando alguém se lembrou das roupas no varal. Esse dia em Cracóvia foi mais um daqueles em que cada um ficou por conta própria e ao invés da refeição no camping fomos liberados para jantar num restaurante da cidade. O objetivo disso é criar uma oportunidade para que se possa experimentar os pratos tradicionais de cada país. Foi exatamente o que fiz: ataquei o tradicional Mc Donalds da esquina. Essa decisão foi tomada após várias tentativas frustradas em restaurantes nas cidades anteriores, onde eu havia levado gato por lebre. Pelo menos ali eu pisava em território conhecido. No fim do dia, retornando ao camping, a maioria do pessoal ainda teve que dar um jeito na roupa encharcada, enquanto eu, que só tinha largado uma toalha no varal, pude ir logo dormir.

Na manhã do dia seis de maio deixamos Cracóvia para trás e seguimos viagem em direção a Warsóvia. Antes da capital polonesa, entretanto, passaríamos pelo lugar onde está localizada uma das mais importantes provas dos horrores da segunda guerra mundial: Auschwitz, o maior campo de concentração e extermínio de judeus, lugar este que foi testemunho do holocausto entre 1940 e 1945. Auschwitz havia sido construído e inicialmente designado como um campo de concentração para prisioneiros políticos durante o regime nazista, mas logo se tornou um verdadeiro matadouro. Os judeus não eram as únicas vítimas da matança. Com o objetivo de assegurar o desenvolvimento de uma “raça pura”, os nazistas tinham planos de exterminar todos aqueles que não se enquadravam nos padrões da raça ariana. E isso incluía qualquer deficiente físico ou mental.

O complexo era dividido em Auschwitz I, Auschwitz II e Birkenau, que hoje são museus abertos a todos que desejam presenciar essa página negra na história da humanidade. A nossa visita ao local durou cerca de quatro horas e foi sem dúvida nenhuma uma das experiências mais marcantes de toda essa viagem. Tivemos oportunidade de seguir toda a trajetória dos prisioneiros, ver como era o dia-a-dia no campo e onde milhares de judeus eram exterminados todos os dias. Auschwitz e Birkenau foram estrategicamente construídos em locais servidos por linhas de ferro, o que permitia fácil acesso aos inúmeros trens lotados de judeus, vindos diariamente de diversos países da Europa. Cada vez que um trem chegava, todos os ocupantes passavam por uma seleção que determinava quais prisioneiros estavam aptos para trabalhos forçados no campo e quais deveriam seguir direto para a morte na câmara de gás. Por causa desse critério de seleção, mulheres e crianças eram, muitas vezes, os primeiros a morrer. Ou então, se num determinado momento já tivessem escravos suficientes, simplesmente mandavam todos para o gás. Àqueles considerados aptos, estavam reservados longos dias de até 12 horas de trabalho braçal, contando com apenas dois pratos de sopa rala e um pedaço de pão velho como refeição diária. Isso tudo, somado à ausência total de quaisquer condições de higiene, fazia com que milhares de prisioneiros morressem muito antes de serem designados à câmara de gás. Alguns dos velhos galpões, local onde os prisioneiros eram mantidos, foram transformados em salas de exposição para os mais variados documentos, fotos e objetos roubados dos judeus. Num desses galpões estão guardadas pilhas de roupas e sapatos que foram retirados daqueles que estavam para ser executados. Algumas toneladas de cabelo raspado da cabeça de todos aqueles destinados à morte também estão lá.


Campo de concentração de Auschwitz

 Grande parte dos prisioneiros morria na câmara de gás, com capacidade para até cinco mil pessoas por dia. Vinte minutos após o gás venenoso ter sido liberado, a câmara estava cheia de corpos espalhados pelo chão. Esses eram recolhidos e transportados até os fornos onde eram cremados. Esses fornos nem sempre davam conta das pilhas de cadáveres que se acumulavam na saída da câmara de gás. Por causa disso, muitos acabavam por serem despejados em enormes valas ou queimados em fogueiras a céu aberto. No fim de todo esse “processo”, as cinzas provenientes do crematório ainda eram recolhidas para serem usadas como fertilizante e o cabelo dos mortos utilizado como matéria-prima para fabricação de tecidos.

Fornos onde as vítimas da câmara de gás eram cremados

Quem visita o lugar tem a oportunidade de entrar na câmara de gás e ver de perto os fornos do crematório. Tudo está lá para ser visto, ainda que seja um cenário um tanto chocante. E por retratar tão claramente os horrores do holocausto, Auschwitz tem servido como um alerta à humanidade, responsável por não nos deixar esquecer e ao mesmo tempo certificar que, no futuro, crimes como este não ocorram novamente.
Centro de Varsóvia

Embarcamos no ônibus e seguimos nosso caminho em direção ao norte da Polônia, mais precisamente à sua capital. Warsóvia não teve a mesma sorte de Cracóvia durante Segunda Guerra e foi totalmente arrasada, tendo sido deixada em ruínas pelos nazistas. Naturalmente, o que não faltam hoje lá são memoriais relembrando e homenageando os mortos de guerra. Entre esses se destacam os memoriais dedicados à população judaica, certamente a que mais sofreu com toda a represália. Por ter sido toda reconstruída após a guerra, Warsóvia hoje é uma cidade bem mais moderna que Cracóvia e apesar de não ser muito atraente, tem lá seus encantos e ainda vale uma visita.


Próxima parte: 

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Sobre o Autor:
Robson Dombrosky , engenheiro, motociclista e aventureiro. Um viajante deveras curioso, que sempre percorre seus destinos munido de um bloco de notas e de uma bela câmera fotográfica.

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