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Vivendo o Cotidiano de Londres - parte 5

Os textos intitulados “Vivendo o Cotidiano de Londres” são o resultado da compilação dos emails que eu enviava aos colegas e parentes no Brasil, descrevendo minhas experiências durante os dois anos que morei na Inglaterra, entre 2000 e 2002. No entanto, ao publicar esses relatos, resolvi mantê-los todos em seu formato original, contribuindo para que o texto retrate minhas impressões exatamente da forma como foram vividas.

Janeiro de 2002

Não foi por falta de oportunidade de sentar na frente do computador que eu não tinha mais escrito.  Muito pelo contrário, nesse inverno que tanto detesto dando as caras com um dia mais gelado que o outro, o que não falta é incentivo para ficar dentro de casa.   Apesar de ainda não ter nevado, as temperaturas têm se mantido sempre bem próximas do zero. Eu sei disso porque faço uso de um aparato muito simples para avaliação da temperatura ambiente: minhas orelhas. Quando elas começam a arder é sinal que não estamos longe de zero.

Dias de barista no Starbucks

 Aqui pelos lados de Londres estava tudo muito bem, principalmente em agosto, quando voltei de uma viagem e o verão ainda estava a todo gás e o sol brilhava até as nove da “noite”. Após 15 dias viajando, já ia quase me esquecendo das minhas agradáveis noites de Mc Donalds, mas logo no primeiro dia de volta ao batente, me pareceu que todos quiseram ter certeza de que eu encontraria tudo do jeitinho que sempre foi: imundície esperando para ser limpa.

Passei pelo menos mais um mês trabalhando naquela cozinha, cada vez mais insatisfeito com a falta de reconhecimento pelo trabalho duro. E a esperança de um aumento que já havia sido prometido simplesmente virou lenda depois que um novo gerente tomou conta do negócio (a minha filial virou franquia, um sujeito lá do Paquistão havia comprado a loja e aparentemente estava a fim de cortar os excessos nas despesas). Devo dizer aqui que meu salário não era nada que pudesse ser chamado de excesso.  Sendo assim, não perdi muito tempo quando apareceu uma oferta num café bem famoso daqui – o Starbucks, que como o Mc Donalds é uma companhia americana, só que este ainda não se estabeleceu no Brasil.

Os primeiros passos para a contratação não foram nenhuma novidade, mas quando eu realmente comecei a trabalhar é que as diferenças começaram a aparecer.  A primeira coisa que me chamou atenção foi a diferença no treinamento dos atendentes: enquanto o sistema de treinamento do Mc Donalds se baseia em duas etapas altamente didáticas que são 1- observe e 2- agora que você já observou trate de fazer igual, nessa empresa o novo empregado passa mais de uma semana com a cara nos livros, aprendendo tudo o que é possível se saber sobre café. E claro, aprendemos também a arte de estampar um lindo sorriso no rosto quando na verdade estamos querendo mandar o cliente para aquele lugar...

Com todos esses conhecimentos técnicos devidamente assimilados, tinha chegado a hora de pô-los em prática. No meu emprego anterior eu nunca havia trabalhado no caixa, mas pelas regras desse café, todos têm que desempenhar todas as funções. Por causa disso, num momento você pode estar no caixa e no minuto seguinte pode ser mandado para o bar, para fazer e servir as bebidas. As duas primeiras semanas não foram lá muito agradáveis, pois eram muitas receitas a serem decoradas e eram sempre exigidos qualidade e rapidez no serviço. Depois de um ano na cozinha do Mc Donalds, eu já vinha sendo considerado “o rei da cocada preta” e isso talvez tenha tornado, de certa forma, um pouco mais difícil me situar num ambiente novo, já que eu não estava mais habituado a ficar perguntando aos outros o que fazer.

Bom, talvez se eu ficasse com minha boca fechada e realmente não tivesse feito pergunta nenhuma, talvez não teria sido tantas vezes designado para oferecer amostras grátis na rua. Isso mesmo, meu pior pesadelo como iniciante no Starbucks café, foi ficar plantado numa rua cheia de gente, segurando uma bandejinha ridícula, oferecendo copinhos de café para todos que passavam, igualzinho àquelas mulheres de supermercado. Só faltava mesmo um aventalzinho de babado para completar a cena, mas achei melhor guardar essa piada só para mim, vai que o gerente gosta da idéia... E a pior época foi o Natal, quando surgiram novas bebidas, e essas tiveram que ser oferecidas a todo o momento. Talvez fosse porque algumas eram tão ruins que aquele deveria ser o único jeito de se livrar delas.  Uma cena difícil de esquecer foi quando eu estava oferecendo uma bebida com cheiro de chulé e gosto de... bom, deixa pra lá! O interessante é que um cidadão apareceu todo animado para pegar a bebida e perguntou se era de graça. Quando viu que realmente era, pegou um copinho e entornou tudo de uma vez. Depois o coitado olhou pra mim com uma cara que até hoje me dá arrependimento de não ter estado com uma máquina fotográfica na mão. “É estranho”, eu disse. “Essa bebida tem tido uma ótima aceitação”!

E assim tem sido, acordando quase todos os dias às 4:50 da manhã, rotina muito agradável, diga-se de passagem, especialmente no inverno!!

Com relação ao fim de ano, tudo se passou mais ou menos como no ano passado, já era tudo bem previsível.  O dia 25 de dezembro mostrou-se novamente o mais chato do ano. Ao contrário do Brasil, onde a molecada curte o feriado jogando futebol na rua da frente de casa, usando as “chinelas” como gol, na Inglaterra tudo para, as ruas ficam desertas, os ônibus e os trens não rodam e o povo fica todo confinado dentro de casa. Seguindo-se a isso, dia 31 comemoramos a passagem de ano no meio de um mar de gente aos pés do Big Ben. Provavelmente aquele não era meu dia, porque acabei me perdendo do pessoal e nem depois de apelar subindo em cima de uma sinaleira de trânsito consegui localizar os caras que estavam comigo. Acabei, por acaso, dando de cara com eles uma meia hora depois. E o resto foi só encheção.

Mais um ano começou, e é o ano em que voltaremos ao Brasil. Apesar de ainda faltarem uns sete meses para o retorno a Florianópolis, já nos sentimos  como que na “reta final”, afinal, o tempo tem voado ultimamente. Se tudo continuar nesse ritmo, quando eu menos esperar será hora de embarcar.

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Sobre o Autor:
Robson Dombrosky , engenheiro, motociclista e aventureiro. Um viajante deveras curioso, que sempre percorre seus destinos munido de um bloco de notas e de uma bela câmera fotográfica.

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