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Vivendo o Cotidiano de Londres - parte 2

Os textos intitulados “Vivendo o Cotidiano de Londres” são o resultado da compilação dos emails que eu enviava aos colegas e parentes no Brasil, descrevendo minhas experiências durante os dois anos que morei na Inglaterra, entre 2000 e 2002. No entanto, ao publicar esses relatos, resolvi mantê-los todos em seu formato original, contribuindo para que o texto retrate minhas impressões exatamente da forma como foram vividas.

Dezembro de 2000

Pois é, aqui continua tudo numa nice, tirando o clima que está um ice. E só de pensar no pessoal lá em Floripa curtindo uma praia... Às vezes sinto muita falta do Brasil. E minha mãe ainda vem  com aquele papo de friozinho gostoso! Só para ela mesmo! Meu pai já fez as pazes com o trânsito, o único problema continua sendo o fato de não conhecermos muito bem as ruas da cidade. Mas isso se resolve logo. O tempo já está começando a passar rápido por aqui. Acho que o fato de estar escurecendo às 16 horas também ajuda a dar uma falsa impressão que o dia já acabou.

Friozinho "gostoso"

 Atualmente também já estou bem mais ocupado do que no início, pois o gerente  lá do Mc Donalds resolveu  me colocar para trabalhar de verdade. Ainda bem, pois como lá se paga por hora trabalhada, eu já estava começando a ficar pobre, trabalhando apenas três dias por semana. O problema é que no momento estou desempenhando o que eu considero a pior função de todas: fechar o restaurante, o que significam longas horas de faxina. Quem olha um Mc Donalds por fora dificilmente vai imaginar a sujeira e a bagunça que fica a cozinha lá pelas 11 da noite, quando ele fecha. Outro dia fiquei cinco horas seguidas só lavando louça. Tenho a ligeira impressão que devo ter lavado todo o maquinário do restaurante, pois quando comecei havia louça quase até o teto!

Domingo passado eu estava de folga e resolvi sair para dar uma volta e arejar as idéias. Peguei um ônibus e desci bem no centro da cidade. Era por volta das seis da tarde, mas é claro que já estava completamente escuro. Fiquei surpreso quando me deparei com todo o comércio aberto e um grande movimento de pedestres nas ruas. Aqui é assim mesmo, as lojas nunca fecham para o almoço, e nos fins de semana também ficam abertas até umas sete da noite. O mais interessante, porém, são os artistas de rua. Naquele dia havia pelo menos cinco atrações diferentes, tais como malabaristas ou pessoas tocando violão, guitarra e/ou cantando. Não é raro encontrar esse tipo de atração pelo centro, já estou até acostumado, mas nesse dia um em especial me chamou atenção. Quem olhasse para aquele sujeito de aspecto simplório e cabelão rastafari  com uma guitarra na mão, sentado no amplificador, dificilmente imaginaria que ele tivesse tanto talento. Fiquei realmente impressionado com aquele cara. Além de detonar na guitarra reproduzindo perfeitamente aqueles solos mais cabeludos do Jimi Hendrix, ele também tinha um vozeirão de dar inveja a qualquer cantor profissional. Nesse momento eu só pude pensar naqueles sujeitos(as) que se dizem cantores e são fregueses de programas baratos de auditório, ganhando rios de dinheiro para dublar músicas totalmente editadas enquanto a platéia grita "LINDOOOO!!!!" E o coitado ali vivendo da boa vontade de meia dúzia que atiram algumas moedas. Realmente é de doer.

Sabe, é engraçado o modo que algumas pessoas imaginam os países do primeiro mundo. A grande maioria tem idéia errada, do mesmo jeito que eu tinha antes de vir para cá. Geralmente se imagina aí no Brasil que Londres seja uma cidade totalmente limpa e com um povo super bem educado, que tudo que é produzido aqui é de primeira qualidade e que todos os cantos da cidade são exatamente iguais aos que aparecem na tv. Não é bem assim! Dependendo do local, as ruas podem estar bem suja, mas também há muita gente consciente. No Brasil, parece que só se valorizam os prdutos importados, mas o que muitos não sabem é que existem muitos produtos made in Brazil nas prateleiras inglesas, como por exemplo, os sapatos brasileiros, que aqui são famosos pela qualidade.

Agora vejam essa: durante a semana passada ventou forte e por causa disso, muitas  árvores se quebraram e seus galhos foram parar sobre os trilhos do trem. Quando eu ia para a aula na manhã de um desses dias, encontrei a estação do metrô fechada em plena horado rush. Como Londres é uma cidade muito populosa, você já pode imaginar a situação! A solução foi então tentar o ônibus (geralmente eu o evito a essa hora por causa dos congestionamentos). Lá fui eu então, já atrasado, para o ponto. Pensei "tudo bem, eu faço sinal para o próximo ônibus, embarco e pronto". De fato foi quase isso que aconteceu. O problema é que depois de uns dez ônibus que passaram e não pararam, finalmente apareceu um em que talvez coubessem mais umas cinco pessoas, devidamente prensadas. Pelos meus cálculos deviam estar no ponto algo próximo de setenta pessoas atrasadas para o trabalho. Quando o ônibus ainda estava a uns vinte metros do ponto, o pessoal debandou geral, todos queriam entrar. O resultado foi um festival de exclamações nada afetuosas, era fuck you pra lá, fuck you pra cá, muito engraçado na verdade. Na hora do "pega pra capar" eu saí correndo pelo meio do povão e não sei como, consegui entrar no ônibus. É... nunca pensei que aqui em Londres veria uma cena dessas!

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Sobre o Autor:
Robson Dombrosky , engenheiro, motociclista e aventureiro. Um viajante deveras curioso, que sempre percorre seus destinos munido de um bloco de notas e de uma bela câmera fotográfica.

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