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Vivendo o Cotidiano de Londres - parte 1

Os textos intitulados “Vivendo o Cotidiano de Londres” são o resultado da compilação dos emails que eu enviava aos colegas e parentes no Brasil, descrevendo minhas experiências durante os dois anos que morei na Inglaterra, entre 2000 e 2002. No entanto, ao publicar esses relatos, resolvi mantê-los todos em seu formato original, contribuindo para que o texto retrate minhas impressões exatamente da forma como foram vividas.

Outubro de 2000

Nem parece, mas já faz dois meses que eu decolei de Floripa e aqui estou em Londres. É de certa forma engraçado, pois eu nunca imaginei que um dia viria a morar na Europa. Mas no passar do dia-a-dia, quando se estabelece uma certa rotina, eu acabo esquecendo isso e vou vivendo normalmente como se tivesse  me mudado para alguma outra cidade do Brasil. Aí em certa altura me dá um "estalo" e penso admirado: "Cara, eu tô na INGLATERRA!!". Não sei se isso é normal ou eu é que tenho algum parafuso solto mesmo... Mas isso é o de menos, a vida aqui é bem tranquila.


Soldado da Guarda Real no Castelo de Windsor
Moramos em uma área razoavelmente nobre da cidade, bem perto do ônibus, do metrô e do centrão. Uma coisa que reparei logo no início é a ausência quase total de assaltos nas ruas. Às vezes acontecem pequenos furtos, mas geralmente são do tipo que a pessoa nem repara quando é assaltada. Eu, pelo menos, nunca vi nenhum elemento suspeito, que fosse capaz de me apontar um “três oitão” e dizer passa a grana! Melhor assim. Acho que isso tem uma explicação lógica: fiquei sabendo que os mendigos daqui são cadastrados no governo e recebem  mensalmente um salariozinho razoável, para que não precisem roubar ou ficar enchendo o saco dos cidadãos. Bem, roubar eles não roubam, mas a maioria fica o dia inteiro sentado pelas ruas com uma cara de vítima e com um papel  onde escrevem que estão com fome, não comem há tantos dias, etc. Na minha humilde opinião, eles são é vagabundos mesmo, pois o que não falta por aqui é oferta de empreguinhos "meia boca", onde seria perfeitamente possível encontrar uma ocupação. Não trabalham porque não querem.

Uma grande desvantagem de Londres, principalmente para os brasileiros, é o preço do custo de vida, é tudo realmente muito caro. Já começa pela moeda local, que vale mais que o dólar. Mesmo que você não seja um deslumbrado e não saia por aí torrando a grana naquelas "comprinhas básicas", pelo menos com comida e transporte vai ter que gastar. O transporte vale a pena, até que é bem eficiente, mas a comida deixa a desejar, principalmente no que diz respeito à frutas, legumes, verduras e carnes (a gauchada de floripa iria se dar mal). Só para se ter uma idéia, a laranja nos supermercados é vendida por unidade, que custa em média 20 pence. Por esse preço eu costumava comprar um quilo da fruta aí na feira! A diferença é que no Brasil temos uma agricultura farta, o que não acontece por aqui. Falando nisso, muitas das melhores frutas encontradas nos supermercados de Londres são importadas do Brasil. No começo estranhei muito a comida, mas agora já estou me acostumando. Só não é possível se acostumar com a água, que é podre, uma porcaria mesmo. Dá a impressão que eles adicionam produtos químicos para torná-la potável e por causa disso, sempre que saio do banho fico com a pele toda ressecada. É comum os ingleses apresentarem problemas nos rins justamente por causa dessa água. Coisa de primeiro mundo. O curioso é que quando esse pessoal vai para o Brasil, geralmente se caga de medo de tomar água brasileira, às vezes até trazem a própria água. Interessante...

Com relação ao idioma, estou estudando desde que chegamos, num cursinho que fica bem no centrão de Londres. Embora eu não tenha muita paciência para estudar em casa, o que é mau, pode-se dizer que estou aprendendo. Já é possível manter um diálogo simplificado com alguém, desde que o infeliz se dê ao trabalho de falar devagar para que eu possa entender. Infelizmente parece que o único que faz isso é o meu professor, o resto do pessoal, inclusive no trabalho, fala como lhes apetece e eu é que me vire pra entender.
Falando em trabalho, comecei há pouco tempo no Mc Donalds. Não foi difícil porque eu fui indicado por uma colega e também porque existe uma infinidade de Mc Donalds na cidade. Só na rua onde fica meu curso, uma das principais no centro, existem cinco filiais e todas estão sempre com movimento bom. O pessoal aqui não vive sem uma "fast food". Só que eu e o meu irmão estamos trabalhando em uma que fica aqui perto de casa, uns dez minutos à pé. No início foi complicado, fiquei desnorteado, o que é normal quando se começa a trabalhar num lugar diferente. Agora imagine eu lá, tentando aprender a lidar com todas aquelas máquinas (pra não falar das vassouras e  esfregões) e ainda com o gerente me explicando tudo em inglês! Devo mencionar que o inglês que o pessoal usa diariamente, o "inglês de rua" é um pouquinho diferente desse que a gente aprende no Brasil. Eles emendam uma palavra na outra, sai tudo enrolado, é uma merda para entender. Mas isso é só questão de tempo até o ouvido se acostumar. O lado bom de trabalhar no Mc Donalds é que eu posso comer de graça. Durante o intervalo eu vou lá e cato o que quiser comer. Ainda bem que eu ralo bastante lá dentro e assim queimo todas as calorias de um "big mac" em pouco tempo, senão arriscava acabar engordando. Sobre o trabalho é basicamente isso, não tem mistério, pois Mc Donalds é igual no mundo inteiro. É um ambiente de trabalho bem descontraído.

Há umas duas semanas o pai comprou um carro e está tentando honestamente se acostumar à dirigir aqui. Como se não bastasse desconhecer as ruas, ainda tem que dirigir na contra mão e com o volante do lado direito. É um saco. Ele disse que eu já posso tirar meu cavalinho da chuva porque não vou poder dirigir aqui. Só ele e minha mãe, porque para poder dirigir é necessário que se pague um seguro cujo preço é inversamente proporcional à idade da pessoa. Sendo assim, eu teria que pagar uma fortuna de seguro. Tudo bem, não estou nem aí. O importante é que com o carro talvez possamos viajar para a Escócia ou até mesmo para outros países. Espero que na estrada seja mais simples dirigir, porque outro dia saímos com o carro e nos perdemos bem no centro da cidade. Mesmo com uns cinco tipos de mapas diferentes levamos várias horas para conseguir achar o caminho de casa.

No trabalho do meu pai, até onde eu sei, está tudo tranquilo. É um serviço totalmente burocrático e apesar dele estar fora de sua especialidade, parece que está dando conta. Eu só estive por lá duas vezes, todos trabalham de terno, mas eu fui bem "mulambo" mesmo, que eu saiba ninguém reclamou. Bem, acho que é só isso por enquanto. Se eu me lembrar de mais alguma coisa escrevo outro dia.

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Sobre o Autor:
Robson Dombrosky , engenheiro, motociclista e aventureiro. Um viajante deveras curioso, que sempre percorre seus destinos munido de um bloco de notas e de uma bela câmera fotográfica.

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